terça-feira, 13 de setembro de 2005

O Inferno em Casa

O País e o Mundo - Rodrigo Guedes de Carvalho.

A propósito do furacão Katrina...

" Fizeram os americanos tantos filmes de catástrofes com final feliz para estarem agora a viver isto. Há quatro anos, o horror cobarde das Torres Gémeas deixou claro que o país mais rico e moderno também tem as suas fragilidades e que não tem, afinal, uma capacidade mágica de encaixar contrariedades e responder à altura. Mas o 11 de Setembro foi um acto terrorista. inesperado por natureza. Serve este pequeno consolo para explicar tanta incapacidade de dar rapidamente a volta. Já o furacão Katrina é outra histórias, mais preocupante. Porque se há desgraças com data e hora marcada são os furacões. Movem-se lentamente, anunciam-se com estrondo. Os Estados Unidos sabiam perfeitamente onde e quando iria o Katrina atacar. Pensou pois o mundo que veríamos umas quantas imagens de fúria do monstro, imediatamente seguidas de uma impacável e rápida organização salva-vidas. Como nos filmes, portanto. mas as horas passavam e o que chegava ao mundo eram imagens de apocalipse, daquelas que vimos no Tsunami, no Iraque bombardeado, na Nagasaki desnorteada. Gente em cima de telhados, pedidos de socorro, cadáveres a boiar, fugas em massa, nenhuma sítio para onde ir, helicópteros pelo ar, fogo, tiros, assaltos, saques, agressões, violações. É absolutamente inacreditável. E um rombo de fundo na mais potente arma americana: a bazófia. Cai violentamente por terra a ideia de que se trata de um país praticamente intocável, muralhado na tecnologia e na preparação sem igual das tropas, bombeiros, polícias, cidadãos. Afinal, não. As imagens são de Nova Orleães, mas é todo um país que o mundo vê de mãos na cabeça, à deriva. As imagens que vamos recebendo são impressionantes. E muitas mais hão-de chegar. Como chegam as imagens do sorriso nervoso de Bush, que agiu com a fulminante rapidez de uma tartaruga coxa, o tal presidente que os americanos lá quiseram mais 4 anos. O presidente que (nota-se demasiado bem) não faz a mínima ideia do que deve fazer. E não deixa de ser tristemente irónico que o Protector do Mundo mande dizer à Europa que agradece qualquer ajuda, desde dinheiro a bens ou petróleo. E assalta-me a questão: nós pensávamos que podíamos dormir descansados porque tinhamos lá fora um cão bravo a guardar o quintal. Agora, ele aparece-nos a ganir à porta do quarto. Ai a nossa vida."

Foi o país e o mundo, até amanhã...

2 comentários:

AJFF disse...

Uma análise onde se diz tudo a situação. Mas alguém devia dizer ao Bush que alguns dispensam o papel de polícia do mundo que os EUA tanto anseiam.

Miguel disse...

Críticas à liderança dos EUA pelo sucedido em Nova Orleães é tarefa fácil. Mas, há que questionar se o mesmo sucedesse em Portugal ou noutro país europeu, que consequências teria esta catástrofe???